
ATENÇÃO: SPOILERS.
A imagem acima é a primeira que se vê. Com o sol nascendo no horizonte, o celeiro que guarda o grande segredo da temporada aparece ao centro, inofensivo. Salvo pela lúgubre trilha sonora, dificilmente se poderia pensar em uma cena mais bucólica. O que se segue não muda muito a atmosfera: a maioria dos personagens toma café da manhã; Andrea afia uma faca; Carol cozinha. Glenn aparece à esquerda da tela; à direita e ao fundo, na varanda da casa, percebe-se o vulto de Maggie olhando para ele. A câmera mostra a moça mais de perto, enquanto ela faz sinal de não com a cabeça. Glenn olha para o outro lado, à procura de Dale, e ao fazer isso, olha através de todo o grupo de sobreviventes que agora representam sua família. Dale faz o sinal oposto de Maggie, ao que Glenn concorda. Uma decisão é tomada. Glenn se levanta, caminha até o centro do grupo, sem que ninguém preste muita atenção a ele. Quando ele para, é possível notar atrás dele o celeiro, com suas janelas que parecem olhos. O garoto começa a falar, e mesmo assim mal consegue que algumas cabeças se virem em sua direção. Então, desajeitadamente, ele despeja subitamente a notícia: “o celeiro está cheio de zumbis”.
A introdução do sétimo episódio da segunda temporada da série The Walking Dead começa assim: simples para o observador simples; cheia de sutileza para o olhar atento. Quando as palavras saem da boca de Glenn e as reações do grupo vêm a tona em cada rosto, o espectador já sabe que aquilo vai definir muito do que será o futuro. Resta saber quanto. Mas, para entender o futuro, é necessário conhecer o passado. Depois de deixar Atlanta, os sobreviventes do apocalipse zumbi pegaram uma auto-estrada, na qual acabaram expostos a uma horda de mortos-vivos. Sophia, a garotinha, corre mata adentro para escapar de zumbis; Rick tenta protegê-la, mas ao deixá-la sozinha abre espaço para que ela se perca. O grupo começa a procurá-la, mas durante as buscas Carl, o filho do xerife Rick, é baleado acidentalmente por um caçador, que os leva então à fazenda onde mora, cujo dono oferece abrigo ao grupo enquanto Carl se recupera e eles procuram Sophia. As relações dentro do grupo original, e entre esse grupo e os habitantes da fazenda, têm altos e baixos, causando desgaste cada vez maior.
The Walking Dead teve um começo que dividiu opiniões, alguns tendo achado ótimo, outros dizendo que faltou ação. Em geral, entretanto, predominaram opiniões positivas. A cena em que os personagens escondem-se embaixo de carros abandonados para escapar de uma grande leva de zumbis foi tensa e teve suas doses de ação, com Andrea sendo atacada (e escapando) e Daryl matando um zumbi para proteger T-Dog. O segundo episódio, contando com o inesperado tiro que atingiu Carl, foi possivelmente o mais independente da série, com muito de sua ação desenvolvendo-se pontualmente, e não como ponte para algo posterior. A partir do terceiro, a série começou a rodar em círculos, com a busca por Sophia servindo de justificativa para que a série se apronfundasse no estudo de seus personagens. Foi aí que as críticas começaram a se intensificar, uma vez que parecia que não havia nada realmente acontecendo, e os roteiristas estariam apenas preenchendo o tempo com ideias repetitivas. A meu ver, o problema não foi a falta de ação em si – e aqui é necessário abrir um parenteses: a série já deu claras demonstrações de que não tem pretensão de ser um terror de ação, frenético; ao contrário, o rumo é de um terror de situação, mais voltado aos personagens. A questão é que o desenvolvimento dos personagens não veio: alguns apenas repisaram assuntos já tratados, enquanto outros tiveram recaídas tolas. Não parecia promissor. O lado positivo era a abordagem dada a Glenn e Maggie.

Então vem o episódio seis, convenientemente entitulado Secrets, e o ritmo começa a mudar. Ao passar a saber de certas coisas que, até o momento, só o espectador sabia, os personagens se veem forçados a tomar decisões, e algumas dessas decisões trazem efeitos negativos de uma forma ou de outra. É aí que entra o capítulo final da primeira parte da segunda temporada. Logo após a cena descrita no início do texto, o grupo aparece do lado de fora do celeiro, e muitos dos sentimentos que estavam entalados nas gargantas são gritados em altos brados; no centro dos conflitos está Shane. Há alguns diálogos de alto nível, em especial o momento em que Rick diz que eles não podem ir embora da fazenda, Shane pergunta porque não, e Carol se adianta e diz que é porque Sophia ainda está perdida. Se vê no rosto de Rick que não era nisso que ele estava pensando, o que não o torna mal, pois a prioridade dele é proteger a esposa grávida, mas proporciona um exercício intelectual para o espectador: quem pensou primeiro na Sophia, quem pensou primeiro na Lori, e quem nem se deu conta de que havia dois motivos, um conhecido por todos e outro oculto da maioria? Enfim, a gritaria do grupo é interrompida bruscamente quando os zumbis começam a forçar a porta do celeiro. A partir daí, a série volta a explorar os personagens, mas com a diferença de que, agora, as situações são reais. As decisões se transformar em consequências e as consequências não tardarão e se mostrar. Cada personagem está ligado aos demais, não de forma simples, mas com múltiplas camadas: Andrea apoia Shane, mas os sentimentos positivos dela por Dale voltaram à tona depois de passada a raiva; Dale nutre inimizade cada vez maior por Shane, enquanto se aproxima bastante de Glenn; este, por sua vez, é possivelmente a ligação mais forte entre os sobreviventes e o pessoal da fazenda; e por aí vai, com as relações se ampliando, criando uma rede bastante complexa para uma série ainda curta.

Quando tudo isso converge para o mesmo ponto, o grande momento chega. Shane enfrenta Dale – de forma aberta – e Rick – indiretamente. Desobedece as regras de Hershel. As armas reaparecem, os ânimos se exaltam. A sete minutos do final, o grupo, agora armado e nervoso, enxerga Rick ajudando Hershel a levar mais dois mortos-vivos para o celeiro. Isso é a gota d’água que leva Shane a perder o controle. Em uma das melhores cenas da temporada, ele abre fogo contra um dos zumbis que Hershel vem trazendo, enquanto grita raivosamente que seres vivos não aguentariam aqueles ferimentos. E finalmente uma decisão irrevogável é tomada: Shane abre o celeiro. Os zumbis começam a sair e são eliminados pelo grupo armado, em uma batalha plenamente desigual. Na medida em que os mortos-vivos vão acabando, as questões começam a aparecer: Shane vai ser o novo líder? O grupo se dividirá entre Rick e Shane? Hershel vai expulsá-los? E então ouve-se um grunhido. Um grunhido. “Que diferença um zumbi poderia fazer a essa alt… merda!”. Para mim, foi esse o raciocínio que ocorreu, e ele se completou antes do aparecimento do vulto de uma criança perto da porta do celeiro. Antes de a câmera focar duas perninhas finas de menina saírem cambaleantes; a procura por Sophia chegara ao fim.

Shane estava certo, a busca pela garota era inútil. Mas e agora? Rostos tomados de dor, dúvida e remorso olham para aquele cadáver se movendo. E a filosofia de Hershel de que aquelas coisas eram pessoas? Quando eram parentes e amigos dos outros, ninguém se importou em matá-los, mas agora é uma garotinha que todos eles conhecem, e cuja mãe está ali, observando. E mais, alguém certamente sabia que havia uma menina no celeiro – e mesmo que não tenha sido Hershel quem a colocou lá, é muito difícil acreditar que ele não tenha sido informado, ainda mais depois que um grupo apareceu procurando por ela. Carol vai querer saber. Será que Maggie sabia? Glenn vai querer saber. Mas tudo isso é futuro, no presente há o zumbi que havia sido uma garotinha, lentamente caminhando através de um lago de corpos, em direção aos vivos, que por sua vez encontram-se paralisados. Rick dá uma olhada sútil ao redor. Se coloca em movimento e em seu rosto ainda se vê dor. Mas uma vez que o movimento começa, o papel que cabe ao xerife é incorporado, e sua expressão se enche de dureza. Ele caminha em direção a Sophia, saca sua arma; quando ele passa por Shane, este olha para ele e aguarda. Estar certo não basta, pois é preciso encarar as consequências, e é isso que Rick faz. Arma levantada; grupo em silêncio, trilha sonora, grunhidos; cara a cara; um tiro. A última coisa que se ouve é o choro desesperado de Carol, enquanto a câmera traça um plano-sequência que termina mostrando, de cima, o grupo de sobreviventes e os corpos dos zumbis exterminados. Há mais mortos do que vivos. Sempre houve mais mortos do que vivos. Mas a morte nunca foi tão dolorosa.

É justo ressaltar que não há atuação menos que notável nos últimos sete minutos do episódio. O pavor de Rick quando ele grita para Hershel segurar a coleira do zumbi e para Shane não abrir o celeiro; o desespero de Carol com a morte da filha; o transe em que Hershel entra ao ver seu mundo desabar; acima de tudo, a explosão raivosa de Shane. Esses são os melhores, mas todo o elenco atua bem nessa sequência.



Imagine que você vai de carona com alguém. Na metade do caminho, o motorista se embrenha por lugares estranhos, e você começa a desconfiar que está perdido. De repente, descobre que chegou ao lugar que procurava, e mais rápido do que esperava. Isso não muda o fato de a viagem ter sido desconfortável, mas mostra que o motorista sabia o que estava fazendo. Foi mais ou menos o que ocorreu com a segunda temporada de The Walking Dead até aqui: a busca por Sophia ocupou muito mais espaço do que os espectadores em geral gostariam; parecia que não havia um linha por trás do que estava acontecendo, só cenas gratuitas. Com a cena final, os roteiristas embalaram todo o esforço que foi dispendido – pelos personagens e pelos espectadores – em encontrar a garotinha e mandaram com papel de presente e um cartão que diz: “Pegamos vocês. E agora?” Obras de arte como filmes e séries de televisão destacam-se, dentre outras coisas, pela capacidade de manipular expectativas. Nesse quesito, medalha de honra ao mérito para The Walking Dead. Saber que o “motorista” por trás da série sabe que caminho está trilhando é um ótimo auspício. Agora é esperar ansiosamente até que a segunda temporada retorne, em fevereiro de 2012.


Ah, e se vocês querem algumas demonstrações de outras formas pelas quais obras como séries de TV se destacam, todas as imagens que ilustram este texto foram tiradas do episódio Pretty Much Dead Already (2×07). Deem uma olhada em mais algumas imagens abaixo.


















