Debate político no Brasil – parte 2

Publicado: 21/09/2011 em Atualidades
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Demorou; aliás, demorou muito. Faz mais de um ano que eu escrevi a primeira parte dessa série de textos. Era o fim de julho de 2010, e uma eleição presidencial se aproximava. O momento era ideal para continuar escrevendo sobre política, certo? Errado, pelo menos do meu ponto de vista. Se você, caro leitor, não leu ainda a primeira parte, recomendo que leia agora, antes de prosseguir (basta clicar aqui). Em época de eleição, o debate política passa a ser dominado por pessoas focadas apenas e tão somente no pleito vindouro; como minha intenção não é, nem nunca foi fazer campanha política, não me senti motivado a publicar um texto que não encontraria espaço entre pessoas preocupadas apenas em defender seu candidato e atacar os outros. E é exatamente esse, inclusive, o tema da parte 2.

Parte 2: O maniqueísmo e seus efeitos sobre o debate político

Antes de mais nada, é necessário definir maniqueísmo. O termo é usado atualmente para definir a crença em relações baseadas em separação clara e absoluta entre bem e mal. Em uma visão simplista, o mocinho ou a mocinha são guiados apenas por boas intenções, enquanto o vilão ou a vilã são incapazes de qualquer bondade. A cultura popular está recheada de exemplos de estórias maniqueístas, das novelas brasileiras até os filmes de ação americanos (notadamente os da década de 1980). É interessante, entretanto, buscar a origem do termo. Maniqueísmo foi o nome de uma religião, hoje extinta, surgida na região da antiga Pérsia, no século 3 depois de Cristo. Ela recebeu tal denominação por ter sido fundada pelo profeta Mani (também conhecido por Manés ou Maniqueu). De acordo com o dualismo maniqueísta, a existência baseava-se em um conflito entre o bem e o mal. Este pequeno parágrafo introdutório, por mais simples que possa parecer, contém basicamente as informações mais importantes para avaliar os efeitos do pensamento maniqueísta sobre o debate político.

Em primeiro lugar, voltemos ao maniqueísmo na cultura popular. A cultura popular, como o próprio nome indica, é feita tendo como destino as massas, que são um grupo vasto de pessoas de características diferentes. Dentre essas características estão escolaridade, acesso a informação e conhecimento artístico. Outra característica da cultura popular é a tentativa de torná-la acessível aos jovens, de forma a ter um público-alvo mais amplo. Resumindo, o que se quer é fazer um filme (por exemplo) que possa ser facilmente compreendido até por pessoas jovens ou de baixa escolaridade. Entra o maniqueísmo: nada mais simples do que acompanhar uma estória na qual você sabe que um lado é bom – e merece sua torcida – e o outro é mal. É o soldado que luta por liberdade contra as forças do tirano que ameaça o mundo; é a garota que quer viver feliz ao lado do amor de sua vida contra a interesseira que tenta conquistar o mesmo rapaz porque ele tem dinheiro; é o político que só pensa no povo, contra o corrupto que quer o poder apenas para enriquecer a si mesmo. A questão é: quanto de realidade existe nisso? Quantas pessoas você conhece, na vida real, que são totalmente boas ou totalmente ruins? O maniqueísmo serve seu propósito como representação artística de bem e mal, mas não é algo a ser tomado como realidade. A razão pela qual as pessoas busca se apegar a ele é a simplicidade. É muito mais fácil acreditar que há um candidato que é “do bem” e outro que é “do mal” e então tomar a decisão óbvia de votar no bem. A alternativa a isso é aceitar a complexidade do mundo real, entender que qualquer candidato tem ideias que não são intrinsecamente boas ou ruins, mas visões diferentes de como abordar as intrincadas questões da vida pública. É compreender que duas pessoas com ideologias e propostas diferentes podem, ambas, estar atrás de um mesmo objetivo: tornar o município, estado ou país melhor. É claro que há políticos desonestos, não só no Brasil como em qualquer parte, e é necessário estar alerta para isso. O problema é que, no Brasil, corrupção tornou-se algo menor, e o maniqueísmo tem uma parcela de responsabilidade nisso. Se um político qualquer é visto como “do bem”, se ele é enxergado pela população como um possível salvador, então ele ganha inequivocamente o benefício da dúvida – até quando não há dúvida, quando existem provas cabais de conduta imprópria por parte de tal político. Esse é um dos motivos pelos quais algumas figuras públicas se mantém vivas – em termos políticos – mesmo quando qualquer pessoa racional parece acreditar que o lugar delas é na cadeia.

Chegamos então ao segundo ponto levantado no primeiro parágrafo: a origem religiosa do termo. Outra das cruéis consequências do maniqueísmo é que ele permite a políticos e correntes ideológicas manipularem seus seguidores, que passam a seguir os “ensinamentos” como se fossem dogmas religiosos. Quem demonstra alguma discordância é certamente parte da turma do mal, não está interessado no bem do povo, no progresso da região, etc. É obvio para qualquer pessoa esclarecida que esse tipo de raciocínio é tolo e não representa os vários fatores que influenciam o pensamento no mundo real, mas o que alguns políticos querem é exatamente contar com um exército de pessoas não-esclarecidas. Vale dizer que eu não tenho nada contra a fé religiosa (eu mesmo acredito em Deus), mas a fé religiosa trata de temas metafísicos, que abrangem o plano espiritual. Política acontece no mundo real, e as consequências de boas ou más políticas são sentidas na hora de comprar almoço, abastecer o carro ou mandar os filhos para a escola – e seria bom que tivéssemos escolas que preparassem as crianças para raciocinar de forma complexa sobre o mundo, não escolas que apenas fornecessem respostas para perguntas. O maniqueísmo aplicado na política é uma das ferramentas que permitem a maus políticos tomarem atitudes claramente negativas e ainda serem aplaudidos por isso. Adicione-se a essa equação a memória curta do brasileiro (pelo menos para política) e pronto, quando os problemas de uma decisão errada do político X começarem a aparecer, ninguém vai responsabilizá-lo. Quando os bons frutos de ideias corretas começarem a ser colhidos, anos mais tarde, ninguém vai lembrar de dar o crédito a quem efetivamente plantou as sementes certas. Até porque quase todo grupo que assume o poder se coloca na posição de representante do bem, o que torna a oposição, por extensão, o mal. No Brasil, temos o exemplo claro e recente do PT e do PSDB. Na era Fernando Henrique Cardoso, o PT, na oposição, era tratado como um problema, um perigo. Já na era Lula, o PT fez a mesma coisa com o PSBD, pregando que este era o vilão, o inimigo. E ambos estavam mentindo.

É a complexidade que dá sabor à vida. Quem gostaria de sentir um único amor durante toda a existência? De ter um único passatempo? De nunca precisar duvidar de nada nem de ninguém? O mundo real é complicado, porque nós somos complicados. E é por isso também que a política tem tantas nuances. Enxergar política como uma dualidade simplista prejudica a todos, exceto às pessoas de mau caráter, que querem lucrar com a ignorância da massa. Não é necessário buscar conhecimento minucioso sobre cada aspecto da legislação, das instituições públicas, da vida pessoal dos candidatos e políticos eleitos. Eu não passo meu dia pensando em política, mas eu gosto do assunto, e por gostar do assunto, gravo algumas informações. Por gostar do assunto, paro para pensar nele de vez em quando. Basta isso, um simples começo, para que o debate político – e a vida política – no Brasil melhore bastante.

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