Este texto faz parte do Festival CeC de Cinema Francês. Para saber mais, clique aqui.
Você já esteve na França? Caso a resposta seja literal, imagino que a grande maioria dirá que não. Se, por outro lado, encararmos a mesma pergunta metaforicamente, então é possível dizer que sim, estivemos na França. Vimos os campos da França no passado feudal. Percorremos os corredores de castelos e palácios, sabendo que a nobreza aproximava-se inadvertidamente de seu cruel destino. Assistimos a espetáculos atrevidos, provocadores, sensuais, a que só a França poderia dar a luz, e que um termo francês descreve bem: avant-garde. Acompanhamos também tantos casais que encontram o significado do amor pelas ruas de Paris. Tudo isso, é claro, comodamente sentados frente a uma tela de cinema, TV ou monitor de computador. Você dirá “ah, mas eu nem gosto de cinema francês.” E eu respondo: não estou falando de cinema francês.
Maria Antonieta (Marie Antoinette, 2006), de Sofia Coppola
O país foi cenário de alguns dos eventos mais importantes da história moderna e contemporânea, e é natural que isso seja explorado. Um exemplo disso é Maria Antonieta (Marie Antoinette, 2006), de Sofia Coppola. Em geral, quando se trata de épicos, o cinema americano gosta de criar visuais fieis ao passado, mas representa os valores da atualidade, frequentemente de forma até pouco sutil, para atingir o público com mais facilidade. Em Maria Antonieta, a diretora faz o contrário. Mistura em cena elementos passados com objetos atuais, criando algo que qualquer pessoa sabe não ser historicamente correto, mas aborda os personagens com profundidade, tentando entendê-los como as pessoas que eram. Poder-se-ia até dizer que essa abordagem é mais fiel ao passado. De uma forma ou de outra, Coppola, americana, inclui em sua obra o componente bem francês que é a transgressão. Algo que, por falar nisso, outro diretor americano faz sempre: Quentin Tarantino. Em seu Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009), Tarantino mostra a França ocupada pelos nazistas durante a segunda guerra mundial. Com uma narrativa que flerta constantemente com o surrealismo e abusa do bom-humor, também Tarantino vai além das “regras” do filme de guerra.
Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009), de Quentin Tarantino
Outro motivo para ter a França como cenário é o fato de que muito da literatura mais respeitada do mundo foi escrita por franceses, ou por estrangeiros na França ou sobre a França. E dessas obras derivam filmes como Os Três Mosqueteiros, O Conde de Monte Cristo, O Corcunda de Notre Dame, A Bela e a Fera, Ligações Perigosas e O Fantasma da Ópera. O que me parece intrigante sobre essas obras é que elas são, via de regra, não mais do que medíocres. Justamente quando as obras originais vêm do próprio seio da França, as adaptações cinematográficas tendem a ser simplificadas e universalizadas, com prejuízo para o significado. As muitas versões de Os Três Mosqueteiros exemplificam bem: pouco há ali que realmente traga à tona a riqueza de fatores que movimentou a França; quase todas as versões tratam de mocinhos que usam suas espadas para matar um monte de bandidos, e cujo código de conduta poderia vir de qualquer obra americana medíocre.
Ratatouille (idem, 2007), de Brad Bird
Casamento ou Luxo (A Woman of Paris: A Drama of Fate, 1923), de Charles Chaplin
O que eu considero mais interessante, entretanto, é quando alguém de fora cria sua própria estória envolvendo a França, sem fundo histórico ou material original. É nesses momentos que podemos entrever como o país é visto por quem olha de fora. Em Ratatouille (idem, 2007), por exemplo, o que vemos é uma França com duas caras: a simplicidade do meio rural e da baixa sociedade parisiense, em contraste com os egos insuflados daqueles que estão ou querem alcançar os níveis mais altos. Algo parecido é visto em Casamento ou Luxo (A Woman of Paris: A Drama of Fate, 1923), de Charles Chaplin: no interior, as pessoas têm laços de fraternidade umas com as outras, a honra importa; em Paris, todos querem alguma coisa, e consegui-la ou não é questão de poder pagar o preço. Afinal, não é de hoje que a França tem seus problemas. Alguns diretores ao longo do tempo souberam retratá-los bem, como Charles Chaplin. A Paris de Chaplin é carregada de ostentação, mas também de fumaça e frustrações: ouro enferrujado.
Moulin Rouge – O Amor em Vermelho (Moulin Rouge, 2001), de Baz Luhrmann
Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset, 2004), de Richard Linklater
Mas, por mais problemas que a França possa ter, a principal impressão que o resto do mundo parece ter dela se resume a uma palavra: beleza. Ou talvez duas, acrescente aí romantismo. Mesmo quando mostra o submundo, Baz Luhrmann coloca o amor acima de tudo em Moulin Rouge – O Amor em Vermelho (Moulin Rouge!, 2001) Mais ainda faz Richard Linklater em seu par de filmes Antes do Amanhecer (Before Sunrise, 1995) e Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset, 2004). Basta uma noite em Paris para que um casal que não se conhecia descubra o verdadeiro amor; e basta um dia para que, anos depois, crie coragem de derrubar as barreiras e reencontrar o que perderam. Aliás, vale mencionar ainda Chocolate (Chocolat, 2000), que combina dois fatores muito identificados com a França: culinária e romance. Além disso, a ação de Chocolate se passa no interior da França, uma boa mudança de ares.
Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011), de Woody Allen
A França se presta a muitos outros papéis, no terrir de Um Lobisomem Americano em Paris, como referência para o sistema de saúde americano em Sicko – SOS Saúde, o paraíso da moda em O Diabo Veste Prada, um local misterioso em Charada ou O Código da Vinci ou o refúgio para americanos que querem fugir de seus problemas em E o Vento Levou ou Fogo de Outono. É palco da ação dramática de Jason Bourne em sua trilogia de filmes; e da ação nem tão dramática assim de Jean Claude Van Damme em Risco Máximo. Em cada um desses, há um misto de reverência e desconfiança, um lugar onde encontrar alguns dos lugares mais bonitos e famosos do mundo, e ao mesmo tempo um lugar onde pode ser fácil se perder, ou perder alguém de quem se gosta. Não deixa de ser apropriado que se possa contar com um ótimo exemplo do fascínio da França sobre os estrangeiros que recém foi lançado: o brilhante Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011), de Woody Allen. No longa, o diretor nova-iorquino resume com um carinho impressionante as mais contraditórias e enlevantes características da Cidade-Luz. Mas é provável que a melhor forma de representar o caráter apaixonante da França seja uma frase de um dos maiores clássicos do cinema, Casablanca: “sempre teremos Paris”.

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