Dois anos atrás, o mundo perdia subitamente um de seus grandes artistas. Michael Jackson, aos cinquenta anos, falecia em circunstâncias que por muito tempo foram debatidas e que levaram até ao indiciamento de seu médico particular. Era um fim condizente com a trajetória pessoal e artística de um homem que se tornou influência, ídolo, lenda, mito ou motivo de piada para praticamente todas as pessoas do planeta. Fato é que quase ninguém deixou de conhecer Michael. E motivos para isso não faltaram; Michael passou quase toda a vida em frente às câmeras, era notícia por bater recordes de vendas ou por envolver-se em situações que pareciam surreais demais para acontecerem todas com a mesma pessoa. Mas depois de Madonna e seu erotismo, boy bands cheias de coreografias, Lady Gaga e suas tentativas de chocar a cada aparição; mesmo com todas as modas, os cortes de cabelo, roupas, estilos, escândalos de tantas celebridades, ainda há espaço para pensar em Michael como referência? Não pense nem por um segundo, a resposta é óbvia: um sonoro sim.
Michael foi um dos artistas mais completos que o mundo já viu. Certamente o mais completo da música pop. A música era o centro, claro, e falarei dela mais à frente, mas Michael foi um precursor em muitas outras frentes. A mais notável dessas, sem dúvida, foi a dança. Michael, o dançarino, dominava técnicas de balé e sapateado, por exemplo. Veja por si próprio neste vídeo da década de 1970, em que Michael interpreta Get Happy, imortalizada por Judy Garland, e I Got Rhythm, clássica de George Gershwin:
Visionário como era, Michael percebeu que a cultura das ruas dos EUA tinha muito a oferecer e precisava de um representante. Ele então misturou street dance às técnicas clássicas e elevou o break à condição de estilo de dança que todo jovem gostaria de ser capaz de dançar na década de 1980. Em 1983, na festa em comemoração aos 25 anos da gravadora Motown, Michael apresentou a canção Billie Jean e imortalizou um dos passos de dança mais consagrados da história, o moonwalk. De acordo com o próprio Michael, Gene Kelly foi a sua casa depois dessa apresentação parabenizá-lo por sua dança. Difícil imaginar reconhecimento maior. E quem assistiu ao documentário This Is It pôde conferir que, mesmo com o passar dos anos, Michael se manteve um grande dançarino, sempre buscando criar algo inesperado e surpreendente.
Outra área em que Michael estabeleceu novas regras foram os videoclipes. Pouca gente não conhece Thriller, mas se você é uma dessas pessoas, aproveite e assista:
Thriller não era apenas um comercial, era um filme com enredo, atuações, efeitos visuais, maquiagem de primeira linha e com direito até a twist final. Foi dirigido por John Landis, que dois anos antes havia filmado Um Lobisomem Americano em Londres, um dos clássicos do cinema de terror (e que voltaria a trabalhar com Jackson em Black or White). Em termos narrativos, muda a sequência da canção para melhor contar a estória do filme: prolonga algumas partes instrumentais; usa o discurso de Vincent Price (outro marco do cinema de terror) na metade, ao invés de no final; atrasa o refrão. Tudo novo, tudo desafiador. Essas características se mantiveram presentes na videografia de Michael, cujos clipes buscavam sempre ter mérito artístico próprio, além de veicularem as músicas de seus álbuns. Ele trabalhou com muitos outros diretores consagrados, como Martin Scorsese (em Bad), David Fincher (Who is It), John Singleton (Remember the Time) e Spike Lee (They Don’t Care About Us). O clipe da música Scream, em que contracena com a irmã Janet, apresenta uma estação espacial criada por computador; a aventura hi-tech de Michael é, até hoje, o videoclipe mais caro da história.
Aliás, voltando ao tema da dança, a coreografia que aparece em Thriller talvez seja a mais famosa da dança moderna; é bonita, divertida e relativamente fácil de aprender – ao contrário de muitos passos que Michael utilizava. Caiu como uma luva para a geração de fãs que desejavam imitar o cantor, e continua sendo referenciada até hoje, desde a apresentação dos presidiários nas Filipinas, passando por flashmobs e até em filmes como De Repente 30.
Jackson causou impacto também no comportamento, em especial na forma de se vestir. Usando roupas de couro, chapéus, sapatos pretos com meias brancas e, em especial, a luva, estabeleceu novos patamares do que era ser cool – coisa que, na prática, todo pop star tenta fazer e poucos conseguem. Jackson sabia que apenas chocar não era suficiente. Era necessário inspirar.
E os videoclipes não foram as únicas investidas de Michael no universo cinematográfico. Aliás, se nos videoclipes Michael foi rei, nos filmes de longa metragem, teve seu pior desempenho. Além de pontas em Homens de Preto 2 e Missão Quase Impossível, interpretou o Espantalho em uma malfadada adaptação de O Mágico de Oz. E, é claro, produziu seu próprio filme. Moonwalker, o filme em questão, contém alguns clipes de Michael, uma vinheta mostrando trechos de sua carreira, até chegar à parte central, onde Michael interpreta ele próprio, mas em um universo fictício no qual adquire superpoderes para impedir os planos de um traficante de drogas que pretende viciar crianças. Moonwalker é irregular: tem alguns trechos bem chatos, alguns interessantes, porém contém pelo menos uma parte brilhante: a apresentação de Smooth Criminal em um night club estilo Chicago dos anos 1930 – na qual, inclusive, Michael mostra outro passo de dança que deixou fãs de queixo caído:
Mas e a música?
Pois é, acima de tudo, houve a música. Michael é universalmente reconhecido como o rei do pop, mas pensar nele apenas como um músico pop não faz jus à sua obra. Isso porque, muito embora o pop fosse a base de sua carreira, o que o tornou um artista diferenciado foi a capacidade de buscar influências, combinar estilos e como resultado criar canções que transcendiam denominações simples. Billie Jean, com seu baixo de R&B, ou Beat It, uma ode ao rock, são símbolos disso. Ao longo de quatro décadas de carreira, Michael construiu uma discografia que o coloca no nível dos grandes nomes da música. E até trabalhou com muitos deles, no projeto We Are The World, por exemplo. A qualidade e a inovação das canções de Michael são atestadas por qualquer parâmetro que se queira utilizar: vendagem recorde, dezenas de prêmios, várias regravações, homenagens que recebe de outros artistas; mas, acima de tudo, o que prova que Michael é um artista imortal é que mesmo seus trabalhos antigos soam até hoje atuais, divertidos, desafiadores ao ouvido, ou, em uma palavra, fantásticos.
Mas as homenagens ao Michael não acabam por aqui. Vem aí meu top 25 melhores canções de Michael Jackson. Aguardem.
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