Estudo de caso no cinema de terror: Pânico na Neve (Frozen, Adam Green, 2010)

Publicado: 31/05/2011 em Cinema
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Antes de mais nada, quero deixar claro que este não será um texto como as resenhas que costumo fazer. Em geral, busco compartilhar minha visão sobre o filme sem entrar em detalhes, para que os leitores que ainda não assistiram não tenham a experiência prejudicada. Hoje farei uma análise crítica de algumas características do cinema de terror baseado no caso de Pânico na Neve, e contarei todos os pontos-chave do enredo. Portanto, se você ainda não assistiu, pare de ler e assista logo, pois trata-se de um bom filme que merece ser conferido. Se você já viu, me acompanhe. Em primeiro lugar, poder-se-ia argumentar que este filme não é um terror formal, pendendo mais para o suspense e o drama. Possui, entretanto, características típicas de filmes de terror, e usadas de forma que facilitam o tipo de análise que desejo fazer. Assim sendo, enquadra-se bem na proposta.

Bem, passemos ao filme. Pânico na Neve foi rodado nos EUA e escrito e dirigido por Adam Green, cujo principal trabalho anterior é Terror no Pântano (Hatchet, 2006). O elenco conta com Emma Bell (que participou da primeira temporada da série The Walking Dead, e estará no vindouro Premonição 5) , Shawn Ashmore (o Iceman da trilogia X-Men) e Kevin Zegers (de Transamérica e Madrugada dos Mortos). A premissa é a seguinte: dois amigos têm o costume de ir a uma estação de esqui para tirar da cabeça os problemas da vida acadêmica. Em uma temporada, entretanto, um deles leva junto a namorada. Cria-se, assim, um esquema relativamente comum em filmes de terror, envolvendo um casal e uma terceira pessoa. Vale notar que o mais comum é que haja dois casais e uma quinta pessoa, o que usualmente serve apenas para ter mais pessoas para matar antes do desfecho. Green não faz uso dessa “bucha de canhão” e mantém seu filme enxuto, o que é um ponto positivo.

É possível dividir a obra em três partes bem marcadas, as tradicionais introdução, desenvolvimento e conclusão. Cerca de um quarto do filme é gasto na primeira parte, situando o espectador em relação à personalidade de cada personagem, às regras do ambiente onde eles estão e dando dicas sobre algo do que acontecerá na parcela intermediária da estória. Esse trecho inicial é importante por dois fatores: estabelece a simpatia que o espectador terá ou não pelos personagens e cria a situação que aterrorizará tais personagens posteriormente.  No primeiro caso, o trabalho de Green é competente por ser contido; com exceção de um ou outro diálogo um pouco exagerado (como um em que o “segura vela” fala sobre o cheiro de fio dental usado), não existem tentativas escancaradas de mostrar quem é bonzinho, quem é engraçadinho ou quem deve gerar antipatia para tornar-se descartável e saciar a eventual sede de sangue do público. No tocante às condições que levam ao estado de perigo que virá no futuro, cabe uma explicação: para potencializar a reação de quem assiste, é interessante que o filme mostre uma situação suficientemente natural com a qual uma pessoa possa se identificar, e que por pequenos desvios de rota se transforma em algo pavoroso. Na maioria dos filmes de terror isso é feito de forma desleixada, algum personagem comete uma imbecilidade qualquer e acaba fazendo com que o grupo todo fique exposto ao perigo. O próprio Green cai nessa armadilha em Terror no Pântano, no qual um passeio de barco noturno se torna mortal porque o guia era um farsante que bate o barco. No caso de Pânico na Neve, temos duas condições-motores para levar à situação de medo. Em primeiro lugar, os três amigos vão esquiar à noite; isso não é exatamente atípico, e poderia ser explicado de várias formas, sendo que a escolhida pelo diretor não causa nenhuma estranheza e ainda gera o que virá a ser um dos bons momentos dramáticos mais além. A seguir, o mais crucial dos detalhes: a moça que geralmente atende os rapazes no acesso aos teleféricos não está trabalhando (fato que foi estabelecido anteriormente, não gerando a necessidade de explicar tudo ao mesmo tempo). O seu substituto não os conhece, e quando ele vai falar com o chefe sobre o cronograma, ninguém mais sabe que os três amigos subiram a montanha – ele ainda avisa a outro funcionário que há três pessoas esquiando, porém os protagonistas não são os únicos na montanha, e o outro funcionário se confunde, o que é plausível. Sendo o último dia de funcionamento da semana, todos estão ansiosos para escapar do frio e ir para casa e, em sua pressa, deixam o trio preso no teleférico.

O trecho médio do filme começa quando as luzes do resort se apagam e os amigos percebem que foram efetivamente esquecidos, e que só haverá movimento na estação de esqui na sexta-feira seguinte (eles ficam presos no domingo à noite). Ao contrário de Terror no Pântano – no qual uma vez que o assassino aparece, praticamente não há pausas e os personagens estão sempre fugindo ou morrendo – em Pânico na Neve a tensão vem em picos, intercalada com momentos de relativa calma na qual os personagens tentam se manter aquecidos e pensar em uma forma de escapar da morte por congelamento. O primeiro momento tenso acontece quando um veículo passa por eles, e é também o mais gratuito. Aparentemente, a função é apenas dar ao espectador uma prova do que está por vir, para que a tensão maior não apareça muito repentinamente. Aqui aparece um dos poucos clichês da obra: o motorista do veículo pensa ter visto alguma coisa (um dos objetos atirados por eles para chamar atenção), mas não vê mais nada e vira a cabeça bem na hora em que eles jogam outro objeto; raso como um pires. Depois de uma pausa para alguns diálogos, vem talvez o melhor trecho, composto por dois eventos: primeiro, o namorado decide pular, quebrando as duas pernas, em uma cena bastante marcante; a seguir, ele é atacado e morto por lobos. Aqui já vem uma grande transgressão do que seria o desenvolvimento comum de um filme do tipo: o diretor não mantém o casal até o fim. Tal fato é bastante respeitável. É necessário também mencionar a inserção dos lobos como ferramenta narrativa. Eles são, sem dúvida, a presença mais estranha e aleatória incluída no roteiro, o que pode causar certa rejeição por parte de alguns. Por outro lado, representam o mais claro fator de terror explícito do filme – o frio é mortífero também, mas é um adversário lento e silencioso. E não é sempre que se pode apelar para a figura do lobo (uma das mais notáveis no imaginário humano) sem que a situação pareça por demais forçada. Há ainda que se ressaltar duas decisões notáveis quanto ao trecho em estudo: primeiro há uma inversão de expectativa, pois o amigo tenta escapar pendurando-se no cabo de aço do teleférico, e o espectador fica na iminência de que algo ocorra com ele, para logo a seguir o namorado lá embaixo ser morto. A outra decisão é dar ênfase nesse momento às reações do amigo e da namorada, e não ao ataque dos lobos em si. Em Terror no Pântano, a violência é gráfica e explícita. Aqui, Adam Green opta por não mostrar sangue, mas mesmo assim consegue impor verdadeiro pavor, enquanto o namorado, em desespero, grita para o amigo não deixar a garota ver o que vai acontecer, para a seguir restarem apenas os gritos dos três. Ótima edição de som, por falar nisso. Segue-se um trecho longo de viés mais dramático, incluindo outros dois bons pontos : o amigo descarregando sua frustração na garota – uma quebra do paradigma do cavalheirismo – e em outro momento, a moça lembrando da cadelinha que ficou sozinha em casa, e temendo que ela morra por inanição. O último pico de tensão vem quando o rapaz decide tentar mais uma vez atravessar pelo cabo de aço. Desta vez ele consegue alcançar uma das torres, porém a cadeira onde ficou a moça começa a soltar-se, e os lobos ainda estão à espreita. O desenvolvimento do filme termina quando o rapaz, após chegar ao solo, passa a descer a montanha com os lobos em perseguição.

A transição para a conclusão é marcada pela passagem de uma noite em que a moça fica sozinha na cadeira. Ao acordar, ela decide tentar descer, mas a cadeira acaba soltando-se, ferindo a perna da personagem, o que serve para tornar o trecho final um pouco mais sofrido, e começa a dar a impressão de ser raso. Mas o pior ainda está por vir. Em uma virada previsível, ela encontra o corpo do amigo semi-devorado, e se vê cara a cara com os lobos, que a deixam passar pois estão se alimentando. Após alcançar uma estrada, ela é vista e resgatada por um motorista. O final, como se pode perceber, é banal, quase padrão, e destoa das liberdades criativas tomadas pelo diretor no decurso do filme. Até aqui, o filme transcorre de forma bastante orgânica, a probabilidade de qualquer tentativa deles de escapar seria pequena, e o mais lógico seria que os três morressem. Caso contrário, a melhor chance seria descer pela torre e buscar ajuda, mas o diretor opta por usar isso como motivo para um truque final, matando o rapaz e salvando a moça de forma incompatível com a proposta. Creio que faltou coragem para criar uma conclusão com menos impacto explícito e mais impacto psicológico. A meu ver, manter os dois vivos e terminar com algo que indicasse a dualidade de ter uma experiência que só pode ser compartilhada por eles, mas ao mesmo tempo os lembra do amigo violentamente morto em frente a eles seria muito mais forte. Me parece serem os finais o calcanhar de Aquiles de Adam Green, já que o final de Terror no Pântano é previsível e bobo.

O resumo da ópera: Pânico na Neve é acima da média em sua introdução; no desenvolvimento, se mostra um belo exercício de criatividade e ousadia, em que o diretor consegue manter a identificação do espectador com os personagens e criar memoráveis sequências de tensão ou mesmo de puro terror; o final tira parte do brilho do filme e, infelizmente, diminui seu valor total. Mas mesmo com essa queda de qualidade, no geral Pânico na Neve é um belo filme, repleto de boas escolhas e de uma direção que é quase sempre consciente e segura.

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